terça-feira, 6 de novembro de 2012

Brincar e Aprender: dois lados da mesma moeda? Quais conteúdos para uma escola de educação infantil de qualidade? Por Gisela Wajskop
¹ No último dia 15 de setembro, em evento internacional inédito, Instituto Singularidades e Escola da Vila apresentaram — para um público seleto de coordenadores, professores e especialistas de escolas privadas e públicas de diferentes partes da cidade e do país –, questões que há muito preocupam os educadores da área da educação de crianças pequenas. Com a presença de duas investigadoras e docentes da Universidade de Buenos Aires, Ana Malajovich e María Emilia Quaranta, fiz a mediação deste que é, há muito, um assunto que me interessa e me instiga tanto na área da pesquisa quanto da formação docente. Sabemos que o Brasil, por diversas contingências, não possui sistema nacional de ensino e este fato acarreta uma diversidade de concepções e práticas docentes que oscilam desde o menos responsável “laissez-faire” ² quanto a oferta de atividades repetitivas e memorizantes apoiadas em tradição escolar do ensino fundamental. Entre uma e outra, navegam diversas práticas que priorizam ora o mítico lúdico infantil, ora uma rotina rígida e eficaz no treino das crianças para longas esperas e obediência certa. As duas palestrantes, com visões complementares, expressaram suas ideias a respeito das questões curriculares na educação infantil, apresentando suas concepções sobre as relações entre aprendizagem formal e aprendizagem espontânea e/ou pela utilização do jogo e da brincadeira. Ana Malajovich mostrou-nos o paradoxo existente na relação entre aprendizagem e brincadeira, trazendo-nos questões em torno de uma concepção de currículo infantil baseado na inserção cultural das crianças. Por meio de propostas sistematizadas e organizadas, em torno de conteúdos e didáticas das áreas do conhecimento, afirmou ser possível tornar acessível às crianças os elementos da cultura, a fim de lhes permitir sua participação na vida social. Seu recorte cultural supõe uma reflexão a respeito desses conteúdos associados a quatro aspectos: 1.Necessidade de seleção dos conteúdos que possa propiciar um processo de construção da identidade nas crianças, por meio de aprendizagens diversificadas, realizadas em situações de interação, que lhes permita apropriar-se dos conteúdos da cultura. 2.A renovação nos conteúdos obriga, necessariamente, a uma renovação na forma pela qual se ensina e como se concebe a aprendizagem infantil. Esse processo, que tem como protagonistas as crianças, só é possível quando a instituição e o docente apresentam os conteúdos associados a práticas sociais reais e de forma não simplificada. 3.O ensino dos conteúdos supõe decisões em relação a “o que ensinar”, a partir do real conhecimento do grupo de crianças. 4.Os conteúdos constituem um instrumento para a compreensão da realidade e não fim em si mesmo e, para isso, é fundamental que compreendamos que a realidade de que se trata é a ampliação do mundo infantil. Maria Emilia, com uma apresentação mais objetiva e baseada em exemplos, demonstrou formas de trabalho com contagem numérica que supõem a contextualização do ensino da matemática. Para ela, nesse caso, a aprendizagem se utiliza de práticas de jogos, de maneira a sugerir problemas cognitivos para as crianças. Nessas práticas, salientou que as crianças podem desenvolver a curiosidade, a confiança em si mesmas, o desejo de conhecer, o respeito à diversidade e a autonomia na busca das soluções. A riqueza das apresentações suscitou diversas perguntas dos participantes, interessados em aprofundar aspectos tanto da organização curricular quanto do uso da brincadeira como estratégia didática. O debate mais acalorado, porém, esteve focado no papel da brincadeira nas práticas e nos currículos infantis. Da plateia, houve quem defendesse total abandono da sistematização relativa às áreas de conhecimento, sugerindo que o espaço da educação infantil é prioritariamente local de experimentação e desenvolvimento da imaginação das crianças rumo à construção de uma cultura da infância. Ana Malajovich avançou um pouco a reflexão, afirmando ser a brincadeira necessária para que as crianças experimentem os conteúdos, apropriando-se deles por meio de um faz de conta livre da intervenção adulta. Rosa Iavelberg, em contribuição consistente, propôs uma discussão sobre a possível existência de uma área de ensino específica do brincar. Em minha opinião, ainda há muito a investigar, concordando, porém, que devamos incorporar a brincadeira como conteúdo de ensino, com estratégias e materiais próprios que, a exemplo da dança, da música e do teatro, tem muito a contribuir como linguagem expressiva no universo infantil. Dessa maneira, poderíamos superar a dicotomia entre ciência e arte presente nos currículos para a educação infantil, sugerindo uma didática específica do brincar que inclua a experimentação e a imaginação como uma das expectativas de aprendizagens das crianças brasileiras. . ¹ Diretora-geral Acadêmica do Instituto Superior de Educação de São Paulo – Singularidades. Doutora em Metodologia de Ensino e Educação Comparada pela FEUSP. Foi coordenadora e autora do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. ² A expressão em francês que significa “deixar fazer” é comumente associada às práticas espontaneístas advindas de concepções escola-novistas de educação das crianças pequenas, baseada na crença de que as crianças devem desabrochar espontaneamente se deixadas livres no ambiente em interação com seus pares. Esse post foi publicado em Centro de Formação e marcado Ana Malajovich, Centro de Formação, Escola da Vila, Formação de professores, Gisela Wajskop, Maria Emilia Quaranta por Centro de Formacao. Guardar link permanente.
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