quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Espasmos do choro, O queé isso?!!


Ainda que os espasmos do choro sejam involuntários, é importante que os pais percebam que são uma forma de manipulação da criança, já que os pais tendem a satisfazer os seus desejos ou a evitar a frustração que os faz sofrer.

Os espasmos do choro, pela sua frequência, são responsáveis por um elevado número de consultas de pediatria. Ocorrem em cerca de 4% das crianças com idade compreendida entre os 6 meses e os 4 anos, afectando meninos e meninas de igual forma. A frequência dos episódios é variável - desde crises ocasionais a vários episódios diários. Em 23% dos casos encontrou-se uma incidência familiar.

Consistem numa sequência típica de eventos que se inicia de forma reflexa em resposta a um factor desencadeante, como medo, susto, frustração ou dor súbita, podendo levar à apneia (a criança deixa de respirar) e até mesmo perda de consciência. São involuntários, auto-limitados e habitualmente não provocam complicações graves.

A apresentação clínica é variável, estando descritas 3 formas clínicas clássicas: cianótica, pálida e mista. Após um estímulo negativo, a criança começa a chorar. Após a expiração a respiração pára, involuntariamente, com consequente alteração da coloração da pele. O episódio dura, geralmente, de alguns segundos a 1-2 minutos, resolvendo espontaneamente. Em casos extremos, se a hipóxia (diminuição do suprimento de oxigénio) a que o cérebro está sujeito for prolongada, pode ocorrer uma crise convulsiva secundariamente.

A maioria das crianças apresenta apenas um dos tipos de espasmo do choro, mas algumas podem apresentar uma forma mista. As crises cianóticas (ou seja, em que a pele fica com uma coloração azulada) são as mais comuns (90% dos casos) e são precipitadas por sentimentos como frustração, raiva ou medo, levando a que a criança chore violentamente e interrompa a respiração durante a expiração, à qual se segue perda de consciência e hipotonia generalizada (o corpo da criança fica muito mole). São mais comuns em crianças muito enérgicas, activas, coléricas e que gostam frequentemente de contrariar ordens. Nas crises pálidas o estímulo costuma ser traumatismo craniano após queda ou uma dor ou susto súbitos, aos quais se seguem palidez cutânea acentuada e perda de consciência. Habitualmente, não há choro antes do episódio. São mais comuns em crianças passivas, inibidas e facilmente impressionáveis.

Habitualmente, o diagnóstico de espasmo do choro faz-se apenas com base na entrevista clínica e exame médico da criança Quando a história não é típica ou as queixas são muito exuberantes, o médico assistente pode sentir necessidade de esclarecer melhor a situação com exames complementares de diagnóstico.

É grave?
Trata-se de uma situação benigna. Na maioria das vezes, os espasmos do choro desaparecem espontaneamente até ao início da idade escolar.

Podem ser manifestação de epilepsia?
Não. Como foi referido anteriormente, trata-se de uma situação benigna, que não necessita de terapêutica e acaba por desaparecer espontaneamente. A epilepsia é uma doença que tem origem numa descarga eléctrica anómala do córtex cerebral. Contrariamente ao que sucede nos espasmos do choro, nas crises epilépticas geralmente não há factor desencadeante (como frustração, susto, dor ou medo). Além disso, as crises epilépticas podem ocorrer enquanto a criança dorme, ao contrário dos espasmos do choro, que nunca acontecem durante o sono.

Têm cura?
Apesar de serem fonte de grande ansiedade para os pais, que se vêem confrontados com uma situação verdadeiramente angustiante e assustadora, não existe medicação que trate ou previna os episódios.

O que posso fazer para ajudar o meu filho?
Os espasmos do choro assustam os pais e podem ser responsáveis por comportamentos desajustados em pais e cuidadores, que acabam por condicionar perturbações de comportamento nas crianças. Os pais ficam, assim, divididos entre a necessidade de impor regras à criança e o receio de novo episódio.

Ainda que os espasmos do choro sejam involuntários, é importante que os pais percebam que são uma forma de manipulação da criança, já que os pais tendem a satisfazer os seus desejos ou a evitar a frustração que os faz sofrer. Assim, é essencial que os pais aceitem esta situação como benigna, auto-limitada e sem consequências graves, de forma a não favorecerem o aparecimento de perturbações do comportamento no futuro. É também muito importante que os pais ajam em conformidade, ou seja, que tanto o pai como a mãe ou outros cuidadores apliquem as mesmas regras. Evitar a imposição de regras só vai acabar por reforçar este comportamento. Os pais devem ainda tentar actuar antes que a criança esteja em stress. Quando a criança evidenciar sinais precoces de oposição (começa a ficar contrariada, a fazer birra), deve ser colocada em local sossegado (como o quarto), até que se acalme por si mesma, evitando pegar-lhe ao colo ou brincar com ela. Além disso, os pais, sendo modelos de actuação, devem também aprender a gerir os seus próprios sentimentos de raiva, de modo a evitar perdas de controlo.

Quando, além dos espasmos do choro, forem notados outros sinais de sofrimento psíquico na criança (auto ou heteroagressividade, isolamento, irritabilidade...), o médico assistente deve ser consultado.

Maria João Magalhães, com a colaboração de Helena Silva, Pediatra do Serviço de Pediatria do Hospital de São Marcos, Braga
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